Com 25 anos de carreira, Mel Lisboa navega entre o sucesso do musical sobre Rita Lee, novos projetos e a rotina comum com os filhos

Imagem: Ale Catan/Divulgação / Velvet

- Barbara Demerov

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14 set 2026 - 04h58

(atualizado às 11h29)

Entre o sinal de que a peça está prestes a começar e os segundos na coxia que antecedem o início de um espetáculo, não existe momento exato em que Mel Lisboa some para dar lugar às suas personagens. Mesmo se tratando de alguém como Rita Lee, artista que já interpreta há mais de uma década, para ela não há método específico, muito menos uma fusão especial: “Depois que a cortina se abre, sou a Mel de peruca, óculos e figurino de Rita Lee, interpretando a Rita Lee.”

Rita entrou na vida de Mel em 2014, inicialmente para a peça “Rita Lee Mora ao Lado”. Mais recentemente, esteve em cartaz em mais uma temporada de altíssima procura com outro espetáculo, “Rita Lee, uma Autobiografia Musical” em São Paulo, cujo texto é inspirado na obra escrita pela própria cantora, que partiu em 2023. Mel construiu uma relação de longa duração com essa figura que segue atravessando gerações. Ela canta, dança e fala como Rita de um jeito natural e comovente. No fim da noite, contudo, o que resta é simplesmente a execução de um papel que já havia sido todo resolvido bem antes, na sala de ensaio e no acúmulo de experiências ao longo de 25 anos de carreira.

Tal consciência de Mel não diminui o efeito que sua bela performance tem nas pessoas. Na verdade, talvez até o amplifique. Em turnê pelo Brasil afora, ela percebe como cada plateia altera o espetáculo a cada noite. “A plateia faz a peça com a gente”, afirma.

Especialmente após a morte da rainha do rock brasileiro, aos 75 anos, Mel é o receptáculo de lembranças que não a pertencem, mas que acabam aquecendo seu coração e deixando inspiração de sobra para as novas apresentações. Ao longo da última década, antes e depois da partida de Rita, a atriz nascida em Porto Alegre sempre encarou a responsabilidade da mesma forma. A principal diferença está no prazer que as pessoas sentem de ter, por alguns instantes, a impressão de estar na presença dela.

Mel Lisboa

Foto: Priscila Prade/Divulgação / Velvet
DISTANCIAMENTO SAUDÁVEL
Seu primeiro trabalho na TV foi aos 19 anos, em “Presença de Anita” (2001), produção da Globo que a alçou ao estrelato. Após o sucesso da minissérie, participou de novelas como “Desejos de Mulher” (2002) e “Como Uma Onda” (2004), e filmes como “Sonhos e Desejos” (2006), que lhe rendeu um Kikito no prestigiado Festival de Gramado. Da Globo, foi para a Record e atuou nas novelas “Sansão e Dalila” (2011), “Pecado Mortal” (2013) e “Os Dez Mandamentos” (2015). No streaming, viveu Thereza na série “Coisa Mais Linda” (2019), produzida pela Netflix.
Agora, aos 44 anos, não espera mais os convites aparecerem à sua porta. “O mercado mudou e está mudando. Hoje em dia, sou mais ativa na escolha, no sentido de que muitas coisas sou eu mesma que produzo ou são trabalhos em que atuo como parceira”, ela diz.
DO ONLINE PARA OS PALCOS
Um desses projetos é a reestreia do solo “Madame Blavatsky — Amores Ocultos”, com texto de Cláudia Barral e direção de Márcio Macena, que também assina o espetáculo sobre Rita Lee ao lado de Debora Dubois. “Perguntei se poderia adaptar esse texto, se o Márcio toparia dirigir e se comprariam um espetáculo que eles não sabiam como seria. Todos toparam”, comemora.
A primeira versão nasceu na pandemia, ainda em formato remoto, e depois ganhou uma montagem presencial em 2023, no Teatro Vivo, em São Paulo. Em cena, Mel interpreta uma atriz que recebe o espírito de Helena Blavatsky (filósofa russa do século 19 e fundadora da teosofia) para narrar sua própria história. “A gente faz essa brincadeira entre realidade e ficção”, diz. O resultado é um jogo teatral em torno de uma figura ao mesmo tempo influente e pouco conhecida. “O texto é belíssimo. As pessoas saem mexidas, querendo conhecer mais.”
Fora essas duas montagens, Mel também esteve recentemente em cartaz nos cinemas com o drama político “A Conspiração Condor”. Diz ainda que se interessa em trabalhar, em algum momento, com textos clássicos, tragédias gregas ou até mesmo com tramas protagonizadas por personagens reais. “Estou sempre pensando lá na frente. Os convites surgem e quero que eles surjam, evidentemente, mas não quero mais depender apenas deles”, destaca.
Mel Lisboa
Foto: Ale Catan/Divulgação / Velvet
MATERNIDADE REAL E VIDA PRÁTICA
Se a área profissional demanda disciplina, o lado pessoal também caminha pela mesma direção. Claro que a palavra “rotina”, quando inserida na vida de uma artista que transita pela TV, pelo cinema e pelo teatro, não é a mais adequada em determinados momentos, como, por exemplo, quando está viajando por diferentes estados com o musical de Rita.
Mas Mel sempre reconheceu a importância de seu ofício para o bem-estar pessoal. “Fundamentalmente, o trabalho faz parte de mim. Meus filhos, que já estão crescidos [Clarice tem 13 anos e Bernardo tem 16], respeitam muito isso.” Mel relembra, quando eles eram menores, de uma tentativa específica de conciliar sua vida em casa com a vida profissional, em que se mudou temporariamente para o Rio de Janeiro com os filhos por causa de uma novela, mas a experiência trouxe outro aprendizado. “Fiz um movimento enorme para mudar de cidade, pois eles eram pequenos, e aí a novela acabou em seis meses”, conta. “Ali eu entendi que a rotina deles era mais importante, já que o meu trabalho não tem um cronograma sempre. Eu precisava me adequar mais a eles do que eles a mim.”
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Atualmente, quando fora da luz intensa do palco, o dia a dia de Mel se aproxima mais do cotidiano comum do que da ideia de uma atriz em constante movimento e glamour. Durante temporadas em São Paulo, onde mora, o dia começa cedo e se divide entre tarefas domésticas, filhos e trabalho. “Eu tenho um dia como todo mundo. Levanto, levo meus filhos para a escola, faço compras, cozinho, faço meus exercícios… Depois vou ao teatro, trabalho e volto para casa”, afirma.
Gosto da separação que existe entre personagem e pessoa real. O indivíduo se sobressai. Essa separação me protege em termos psicológicos, emocionais e físicos. Eu não sou as personagens que eu interpreto, nem nunca serei. Apenas as interpreto. Diferenciar isso é muito importante para mim.
Mel Lisboa interpreta Rita Lee nos teatros
Foto: João Caldas/Divulgação / Velvet
FRIO NA BARRIGA
Mel Lisboa possui um cuidado admirável com cada um de seus projetos e fala deles com orgulho. Vendo de fora, até pode parecer que ela já se acostumou tanto com os desafios profissionais que uma possível inquietação não faz mais parte de seus dias. Mas isso é pura ilusão. Se há algo que não se altera com o tempo é a presença constante do risco. Mesmo em trabalhos consolidados, tal como o musical de Rita Lee, a segurança nunca é total. “Eu tenho que dar meu melhor sempre”. O nervosismo continua especialmente em territórios menos dominados. “Cantar, para mim, ainda é um desafio mesmo… toda vez que eu vou entrar no palco para cantar, fico nervosa.”
É justamente esse frio na barriga que se transforma em movimento. “Eu sou movida a desafios”, diz. Mel ainda lembra uma frase de Rita registrada em uma de suas autobiografias que diz que “o palco é o lugar mais seguro para se viver perigosamente”. E reforça que é lá mesmo onde tudo acontece. “É onde a gente pode arriscar e vai errar inevitavelmente. Um lugar para aprender com os erros e celebrar os acertos.
Fonte: Velvet Conteúdos da revista Velvet
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