Ramiro Brites

Terrenos públicos ocupados por empresas e moradia particular estão à venda em plataforma do governo de SP e ganham potencial especulativo

Ramiro Brites

02/10/2026 04:30

William Cardoso/Metrópoles

A casa de um taxista que também funciona como pátio de guincho, uma oficina mecânica, um estacionamento e até uma loja de barcos de alto padrão ficam em endereços na zona sul da capital paulista que estão à venda na plataforma do Fundo de Investimento Imobiliário do Estado de São Paulo (FIISP). Os terrenos são propriedades públicas e estão classificados pela plataforma como ocupações irregulares.

À venda desde 2013 e 2016, quando tiveram a alienação aprovada em lei, essas áreas ganharam um potencial especulativo no mercado imobiliário neste ano. Os terrenos ficam nos arredores da Linha 17-Ouro do Metrô, novo monotrilho que liga o Aeroporto de Congonhas à rede ferroviária, inaugurado em março de 2026.

Promessa para a Copa do Mundo de 2014, a obra do monotrilho foi destravada na gestão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e é usada como uma bandeira do mandato em peças de publicidade eleitoral. No domingo (4/10), Tarcísio disputa a reeleição e é favorito nas eleições, na qual tem como principal adversário o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT).

Os três imóveis — uma loja de barcos, um estacionamento com oficina e uma casa — estão em um raio de 700 metros de estações. A essa distância de pontos de metrô, os terrenos têm a capacidade construtiva quatro vezes maior do que a área total do imóvel, ou seja, uma grande possibilidade de verticalização, de acordo com a Lei de Zoneamento do município paulistano.

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Loja de barcos em área pública ocupada
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Barcos expostos em terreno público na Zona Sul de São Paulo
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Loja funciona desde 2008 e autorização de terreno é de 2013
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Terreno público funciona como estacionamento
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Oficina é sediada em área pública à frente da Linha 17-Ouro
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Casa de taxista próxima à Linha 17-Ouro do Metrô
Reprodução/FIISP
Todos os ocupantes dos imóveis disseram à coluna que não são donos dos imóveis e que não saberiam como seria o futuro caso o Estado vendesse os terrenos. Em nota, o governo disse que uma venda eventual não implica desocupação imediata.
“A situação de cada ocupante é analisada individualmente, considerando existência de contratos, permissões, direitos de preferência ou demais relações jurídicas. Não existe previsão geral e automática de indenização ou reassentamento”, disse o governo em nota.
O governo também explica que não divulga valores de avaliação e laudos sobre os imóveis durante processos de alienação para garantir a competitividade ao processo e a oferta do melhor valor possível.
Loja de barcos
Com frente para a avenida Santo Amaro, a BoatSP está em uma área à venda na plataforma do FIISP, inclusive com fotos dos barcos divulgadas no anúncio do governo. Segundo o site, o terreno tem 800 m², mas o tamanho da área construída não é informado.
Aprovado para alienação desde 2013, o imóvel é uma “ocupação irregular”, segundo informado na plataforma do fundo.
A empresa está registrada na Junta Comercial paulista desde 2008, onde também consta a existência de filiais em Balneário Camboriú (SC) e Angra dos Reis (RJ).
Quando a reportagem foi ao local, havia uma reunião em inglês em uma das salas. Em outro ambiente, um representante comercial disse que um agente da Prefeitura chegou a avisá-lo que o terreno poderia ser vendido, disse que o local é alugado e que acreditava que parte da área era pública e outra do locador.
A loja fica a cerca de 500 metros da estação Campo Belo, da Linha 17-Ouro do Metrô. A coluna tentou entrar em contato com os donos da loja, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.
Estacionamento e oficina
O terreno ocupado por um estacionamento e uma oficina simples, de frente para uma praça, destoa das outras construções da região. Classificado como ocupação irregular pela plataforma, o local fica a 750 metros de um hotel cinco estrelas da rede Hilton.
A área de 1.000 m² está a cerca de 500 metros de distância da estação Chucri Zaidan da Linha 17-Ouro. De acordo com a plataforma do FIISP, o local pode ser vendido desde 2016.
No estacionamento, dois funcionários cuidavam do local, onde havia carros da Turbi — aplicativo de aluguel de carro por hora —, veículos clientes rotativos e ônibus de empresas de turismo pouco conhecidas. Embora confirmassem o endereço, eles não sabiam informar sobre quem era o dono do terreno.
Na oficina, uma moradora do Grajaú, periferia no extremo sul de São Paulo, cuidava do negócio há cerca de cinco anos. O imóvel é alugado e, segundo ela, caso fosse vendido, pediria um tempo para tirar os carros dali, procurar outro lugar para trabalhar e seguir em frente.
Casa de taxista
No número 739 da rua Vicente Leporace, a reportagem tentou olhar o que tinha por trás do portão azul que guarda o terreno cheio de carros. Nesse momento, um homem que estava em um táxi estacionado em frente à casa disse que morava ali. O imóvel fica a menos de 150 metros da estação Brooklin Paulista, da Linha 17-Ouro.
Ele disse que morava ali há mais de três décadas e que o terreno pertencia ao Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo (DER). Antes de ele chegar, o irmão dele, que mora ao lado, foi autorizado por uma funcionária do órgão a construir no local “para que não fosse ocupado”. A plataforma do FIISP classifica o local como área de ocupação.
O taxista, que não quis se identificar, afirma que o terreno pertence ao DER e afirmou que hoje o irmão dele faz os acertos anuais com um advogado, que sucedeu a funcionária do órgão estadual. Segundo ele, o homem cobra R$ 9 mil, que seria equivalente ao IPTU.
Sobre os carros parados no pátio, ele disse que se trata do depósito do guincho do irmão, que mora na casa ao lado. O homem também disse que a maioria dos imóveis naquela rua eram ocupações.
Segundo a plataforma, o terreno tem 296 m², dos quais 60 m² são área construída. O local é considerado uma ocupação irregular e está à venda desde 2013.
Neste caso, o site informa que houve uma proposta em agosto, encerrada em 5 de setembro. Em nota, o governo explicou que a oferta está em análise.
“A apresentação da proposta não obriga o Fundo a aceitá-la nem gera preferência ou exclusividade. Concluída a análise e formalizada a operação, será divulgada exclusivamente a alienação do imóvel, e os participantes do procedimento serão comunicados do resultado, nos termos do regulamento do FIISP”, disse o governo em nota.


