Levantamento em 26 Estados mostra eleitorado 'calcificado', mas também uma parcela independente que pode mudar de voto até a eleição

27 set 2026 - 16h06

(atualizado às 16h08)

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- Por: Isabella Lima

Lula e Flávio lideram as pesquisas de intenção de voto nacionais

Foto: Wilton Junior/Estadão e Taba Benedicto/Estadão / Estadão

O empate na disputa pela Presidência da República no agregado nacional esconde diferenças importantes entre os Estados, segundo uma análise do cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest. Com base nas pesquisas estaduais do instituto realizadas nesta semana em 26 Estados e no levantamento do Datafolha no Piauí, o especialista identifica padrões distintos de distribuição dos votos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

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No primeiro turno, Lula aparece à frente em dez Estados, todos os nove Estados do Nordeste e o Amapá. Flávio lidera em oito: Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Acre, Rondônia e Roraima. Em outros nove Estados, incluindo São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, os dois aparecem empatados dentro da margem de erro.

Para Nunes, o mapa eleitoral pode ser dividido em três blocos. "O empate nacional esconde três "Brasis" claros, divididos entre convicção e rejeição", escreveu o pesquisador na análise publicada no LinkedIn neste domingo, 27. O levantamento considera empate quando os intervalos dos dois candidatos se sobrepõem, com margem de erro de 3 pontos porcentuais, à exceção de São Paulo, onde é de 2 pontos.

Eleitorado de Lula e Bolsonaro permanece concentrado

Um dos principais pontos destacados por Nunes é a semelhança entre a distribuição atual dos votos e o resultado da eleição presidencial de 2022. A intenção de voto em Lula nos Estados apresenta correlação de 0,98 com o desempenho que o petista teve no primeiro turno daquele ano. "O voto de Lula hoje é quase uma cópia de 2022", afirma o pesquisador. "É a calcificação em números."

O mesmo padrão aparece entre os eleitores de Flávio Bolsonaro quando comparados aos votos recebidos por Jair Bolsonaro em 2022. A correlação estadual é de 0,95. Segundo Nunes, o desempenho do senador reproduz, em grande medida, a distribuição geográfica do eleitorado que apoiou seu pai na última eleição presidencial. "O mesmo vale do outro lado. O voto em Flávio repete o de Jair em 2022, com correlação de 0,95. Trocou o nome, o eleitorado ficou", escreveu.

Apesar da estabilidade, há diferenças nos locais em que cada candidato avançou ou recuou em relação ao desempenho de 2022.

No caso de Lula, os principais crescimentos aparecem justamente em Estados onde o petista já tinha vantagem. O presidente registra aumento de 7 pontos porcentuais no Maranhão, 6 na Bahia e 4 pontos na Paraíba e em Sergipe. Fora do Nordeste, as variações são menores, de uma queda de 3 pontos em Goiás e Tocantins a um crescimento de 3 pontos no Distrito Federal, com exceção do Amapá, onde há avanço de 6 pontos. "Lula aprofunda o voto onde já tinha", resume o sócio-fundador da Quaest.

Flávio cresce no Norte e Centro-Oeste, mas perde espaço onde há alternativas à direita

Na comparação entre Flávio e o desempenho de Jair Bolsonaro em 2022, os maiores avanços aparecem no Norte e no Centro-Oeste. O senador cresce 6 pontos em Rondônia, 5 em Mato Grosso e 4 no Pará. Também registra aumento de 5 pontos na Bahia.
Por outro lado, há recuos em Estados onde a direita possui outras opções eleitorais. A queda chega a 8 pontos no Distrito Federal e a 6 em Goiás, Estado que foi governado por Ronaldo Caiado (PSD), também candidato à Presidência. Paraná, Rio Grande do Sul e Espírito Santo registram redução de 3 pontos.
A análise também compara o tamanho dos campos políticos com a intenção de voto dos candidatos. Segundo Nunes, Lula consegue ultrapassar, em quase todos os Estados, a soma dos eleitores que se identificam como lulistas e de esquerda não lulista, principalmente no Nordeste.
No caso de Flávio, há Estados em que o senador ainda não converte todo o eleitorado identificado com a direita em intenção de voto. Isso ocorre, segundo o estudo, principalmente em Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal e São Paulo.
Independentes podem ser decisivos
É nesse grupo que o cientista político identifica uma parcela importante do eleitorado ainda disponível para mudar de posição. Os independentes representam entre 24% e 36% do eleitorado nos Estados analisados. O grupo tem maior peso no Rio de Janeiro, onde chega a 36%, seguido por Amazonas, com 35%, e Tocantins, Rio Grande do Sul e Goiás, com 33%.
"Por que isso importa? Porque o jogo está nos independentes", destacou Nunes.
A aprovação do governo Lula também ajuda a explicar a distribuição atual dos votos. O presidente tem saldo positivo entre aprovação e desaprovação no Nordeste e em Estados como Amazonas e Pará. Já no Centro-Sul, o saldo é negativo. Minas Gerais e Tocantins aparecem próximos do empate, justamente dois dos Estados em que a disputa presidencial está mais aberta.
Medo de Lula ou da família Bolsonaro organiza parte do voto
Outro recorte analisado pela Quaest é o que os eleitores dizem temer mais em relação ao resultado da eleição. No Nordeste, quase 60% afirmam temer a volta da família Bolsonaro ao poder. No Norte e no Sul, por outro lado, chega a 64% a parcela que afirma ter mais medo de um novo mandato de Lula.
Em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Goiás, o percentual de eleitores que dizem ter medo dos dois candidatos chega a 8%. Para Nunes, é justamente nesses Estados que está parte importante do eleitorado em disputa.
Há ainda uma diferença entre a intenção de voto declarada e a percepção sobre quem vencerá a eleição. Mesmo em Estados nos quais Lula está empatado ou atrás de Flávio, o petista é apontado por parcelas maiores dos entrevistados como o provável vencedor.
Em São Paulo, por exemplo, 50% dizem acreditar que Lula vencerá a eleição, contra 35% que apontam Flávio. No Rio de Janeiro, a relação é de 49% a 37%. No Paraná, 44% contra 40%. Segundo a análise, Flávio só é apontado como vencedor em sete Estados.
De 11% a 23% admitem mudar o voto
Apesar da chamada "calcificação" identificada por Nunes, a pesquisa também mostra que uma parcela dos eleitores ainda não considera definitiva a escolha do candidato.
Entre os que já declaram voto, de 11% a 23% afirmam que podem mudar de opinião. Os maiores índices aparecem no Paraná, com 23%, no Amapá, com 21%, em São Paulo e Santa Catarina, com 20%, e em Minas Gerais e no Distrito Federal, com 19%.
O dado coloca os Estados onde há empate ou pequena diferença entre os candidatos como espaços de disputa ao longo da reta final da campanha.
Governadores têm cenário diferente da disputa presidencial
A análise do cientista político também se estende às eleições para governador e mostra que a dinâmica nos Estados não necessariamente acompanha a corrida presidencial. Em sete Estados, um candidato já aparece com chance de vitória no primeiro turno pelo critério considerado no estudo: Roraima, Amapá, Piauí, Paraíba, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Santa Catarina. Em outros 14, a disputa está dentro da margem de erro.
O levantamento também mostra que a aprovação de um governo estadual não se transforma automaticamente em intenção de voto para seu candidato. Em todos os Estados analisados, o candidato apoiado pelo governo aparece com percentual de votos inferior ao índice de aprovação da administração estadual.
O caso citado como extremo é o Paraná: cerca de 80% aprovam o governo, enquanto o candidato apoiado pelo governador tem 20% das intenções de voto.
Eleitor ainda não definiu voto para governador e Senado
A indefinição é ainda maior quando os entrevistados são questionados espontaneamente, sem receber uma lista de candidatos. Na disputa pelos governos estaduais, o percentual de eleitores que não cita espontaneamente nenhum nome varia de 18% no Amapá a 65% em Mato Grosso. Em 13 Estados, mais da metade dos entrevistados não menciona nenhum candidato.
No Senado, a indefinição é ainda maior. Em 22 Estados, mais de 60% dos eleitores não citam espontaneamente nenhum candidato. Em São Paulo, o índice chega a 79%. "Se nem o eleitor sabe em quem vai votar, a pesquisa não tem como adivinhar", afirma Nunes.
Saúde e violência estão entre as principais preocupações
A análise também mapeia os principais problemas apontados pelos eleitores em cada Estado. A violência lidera no Rio de Janeiro, citada por 62% dos entrevistados, no Ceará, com 54%, e na Bahia, com 40%.
Na maioria dos outros Estados, a saúde aparece como principal preocupação, chegando a 60% no Distrito Federal. No Rio Grande do Sul, as enchentes ainda representam uma questão relevante e são citadas por 25% dos eleitores.
"O empate nacional esconde um país calcificado, um eleitor independente concentrado no Centro-Sul que ainda pode se mover, e estados com pressa de resolver a eleição para governador", resume o pesquisador. "A última semana vai ser decisiva", acrescenta.
Datafolha: Lula tem 40% e Flávio Bolsonaro, 36% no 1º turno:
Fonte: Portal Terra
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