O canabidiol (CBD) no tratamento da Doença de Parkinson (DP) é considerado um composto promissor para o tratamento desta doença e também uma opção alternativa e complementar aos tratamentos farmacológicos disponíveis atualmente. A Doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa crônica e progressiva associada a idade, caracterizada por alterações nos gânglios da base resultando na degeneração gradual dos neurônios dopaminérgicos na substância negra, resultando em declínio no corpo estriado. O dano neuronal do trato nigroestriatal pode estar relacionado ao estresse oxidativo, à diminuição da degradação de proteínas e à disfunção mitocondrial. As pessoas com a Doença de Parkinson podem apresentar sintomas motores (bradicinesia, tremor, estresse, rigidez e os distúrbios posturais) e não motores (déficits cognitivos, constipação, incontinência urinária, disfunção sexual, hipotensão ortostática, distúrbios do sono e distúrbios psiquiátricos como depressão, ansiedade e psicose). A principal forma de tratamento é farmacológica, com tudo, muitos medicamentos não conseguem tratar a doença a longo prazo. A capacidade multimodal do canabidiol, atuando em diferentes alvos moleculares, torna este composto um medicamento promissor para o tratamento da doença de Parkinson. Seus mecanismos de ação ajudam a aliviar os sintomas motores da doença e também é capaz de melhorar a função cognitiva, fatores que contribuem para uma melhor qualidade de vida do paciente.
História Em 1940, o CBD foi isolado pela primeira vez e é um dos fitocanabinoides com maior quantidade já encontrados na Cannabis sativa, compondo cerca de 40% do extrato da planta. No Brasil, no final de 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), aprovou uma resolução sobre a dispensação e a prescrição de medicamentos baseados no uso psicotrópico dessa substancia. Vários estudos foram necessários para que sua estrutura fosse decifrada. Inicialmente foi declarado como uma substância inativa, mais tarde, foram apresentados estudos comprovando que o CBD realizava um processo modulatório do THC resultando em uma gama de ações no sistema nervoso central (SNC), em ressalva aos efeitos antiepilépticos, ansiolíticos e antipsicóticos.
Mecanismo de atuação Estudos pré-clínicos e clínicos apontam para a efetividade do CBD no tratamento principalmente dos sintomas não motores da DP. Esse composto parece inibir os agonistas dos receptores canabinoides 1 e 2, impedir a recaptação da anandamida e ser agonista do receptor de serotonina e dos receptores de vanilde. Parece haver uma ação global e sincrônica em múltiplos sintomas, por meio de mecanismos ainda não totalmente elucidados. A ação multivias, expressa pelo CBD, conflui com a patogênese multifatorial da DP e sua possível utilização terapêutica é suscitada pelo espectro limitado de reações adversárias e pela sua boa tolerabilidade. Além disso, o CBD pode atenuar os sintomas psicóticos induzidos pela levodopa, além de apresentar efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e neuroprotetores. Por possuir ações analgésicas, anti-inflamatórias e antioxidantes, o uso do CBD no tratamento da DP merece atenção, considerando que os mecanismos oxidativos e inflamatórios compõe a patogênese das desordens manifestadas pela DP, trazendo consigo uma variedade de potencial terapêutico acerca dos sintomas multifatoriais que se diferem entre pacientes.
Pesquisas Estudos clínicos e pré-clínicos tem investigado CBD com o objetivo de compreender os benefícios do seu mecanismo de ação. Um dos primeiros estudos com o fitocanabinoide evidenciou seus efeitos na distonia e com essa descoberta, outros estudos têm mantido seu foco em algumas doenças que apresentam esse mesmo caráter neurológico, como a Doença de Parkinson (DP) e de Huntington (HD). Estudos indicam que canabinoides como o Δ9-tetraidrocanabinol ou o canabidiol protegem os neurônios nigrais ou estriatais em modelos experimentais de doenças neurodegenerativas, nos quais a lesão oxidativa é um mecanismo citotóxico proeminente. Esse efeito poderia ser exercido, ao menos parcialmente, por mecanismos independentes dos receptores CB1 e CB2 e envolvendo o controle das defesas antioxidantes endógenas. A ativação dos receptores CB2 leva a uma progressão mais lenta da neurodegeneração. Esse efeito seria exercido pela limitação da toxicidade das células microgliais para os neurônios e, em particular, pela redução da geração de fatores pró-inflamatórios. É importante destacar que os receptores CB2 foram identificados no cérebro saudável, principalmente em elementos gliais e, em menor extensão, em certas subpopulações de neurônios, e que eles são dramaticamente regulados positivamente em resposta a estímulos prejudiciais, o que reforça a ideia de que o sistema canabinoide se comporta como um sistema neuroprotetor endógeno. Essa regulação positiva do receptor CB2 foi encontrada em muitos distúrbios neurodegenerativos. Indicando efeitos benéficos encontrados para os agonistas do receptor CB2. Um estudo investigou se a administração de CBD em ratos atenuaria as deficiências motoras e cognitivas induzidas pela reserpina para simular os sintomas da DP já que a substancia provoca discinesia oral, catalepsia e comprometimento da memória. Ratos Wistar machos receberam quatro injeções de CBD (0,5 ou 5 mg/kg) dias 2 a 5. Nos dias 3 e 5, os animais também receberam uma injeção de 1 mg/kg de reserpina. A atividade locomotora, os movimentos de mastigação vazios e a catalepsia foram avaliados do dia 1 ao dia 7. Nos dias 8 e 9, foi avaliado o desempenho dos animais na tarefa de esquiva discriminativa em labirinto em cruz, para avaliação da aprendizagem/memória. O CBD (0,5 e 5 mg/kg) atenuou o aumento do comportamento de catalepsia e dos movimentos orais – mas não a diminuição da locomoção – induzidos pela reserpina. O CBD (0,5 mg/kg) também amenizou o déficit de memória induzido pela reserpina na tarefa de esquiva discriminativa. Indicando que o CBD é capaz de atenuar os comprometimentos motores e cognitivos induzidos pela reserpina, sugerindo o uso deste composto na farmacoterapia da doença de Parkinson e da discinesia tardia. Em pacientes com doença de Parkinson, o tratamento com CBD atenua os sintomas psicóticos induzidos por L-DOPA. Um estudo piloto avaliou a eficácia, tolerabilidade e segurança do CBD em pacientes com DP que apresentavam sintomas psicóticos. Seis pacientes ambulatoriais (quatro homens e duas mulheres) com diagnóstico de DP e que apresentavam psicose há pelo menos 3 meses foram selecionados para o estudo. Todos os pacientes receberam CBD em dose flexível (iniciada com uma dose oral de 150 mg/dia) por 4 semanas, além da terapia habitual. Os sintomas psicóticos avaliados pela Escala Breve de Avaliação Psiquiátrica e pelo Questionário de Psicose de Parkinson mostraram uma diminuição significativa sob tratamento com CBD. O CBD não piorou a função motora e diminuiu os escores totais da Escala Unificada de Avaliação da Doença de Parkinson. Nenhum efeito adverso foi observado durante o tratamento. Os resultados dos dados preliminares sugerem que o CBD pode ser eficaz, seguro e bem tolerado para o tratamento da psicose na DP. Estudos também apontam para uma melhora nos sintomas não motores e na qualidade de vida dos pacientes. Um ensaio exploratório duplo-cego com uma amostra de 119 pacientes avaliados em um ambulatório especializado em distúrbios do movimento, 21 pacientes com DP sem demência ou comorbidades psiquiátricas foram selecionados para o estudo. Os pacientes foram divididos em três grupos de sete participantes cada, tratados com placebo, canabidiol (CBD) 75 mg/dia ou CBD 300 mg/dia. Uma semana antes do ensaio clínico e na última semana de tratamento, os participantes foram avaliados em três aspectos: (i) escore de sintomas motores e gerais (UPDRS); (ii) bem-estar e qualidade de vida (PDQ-39); e (iii) possíveis efeitos neuroprotetores (BDNF e H 1 -MRS). O estudo não apresentou diferenças estatisticamente significativas nas pontuações UPDRS, nos níveis plasmáticos de BDNF ou nas medidas de H 1 -MRS. No entanto, os grupos tratados com placebo e CBD 300 mg/dia apresentaram pontuações médias totais significativamente diferentes no PDQ-39 ( p = 0,05). No entanto, o estudo aponta para um possível efeito do CBD na melhoria das medidas de qualidade de vida em pacientes com DP sem comorbidades psiquiátricas; Mas exorta que estudos com amostras maiores e objetivos específicos são necessários antes que conclusões definitivas possam ser tiradas. Há necessidade de mais pesquisas, ou seja, estudos clínicos com amostras significativas, para compreender os efeitos e mecanismos de ação do canabidiol em indivíduos afetados pela Doença de Parkinson, pois os ensaios clínicos são em geral limitados e envolvem amostras pequenas.
Links externos Palestra ministrada pelo pesquisador Vitor Tumas para a Rede de Apoio à Amigos e Pessoas com Doença de Parkinson (AMPARO), com iniciativa do CEPID NeuroMat [link].
Referências

