Dinheiro é liberdade. Por que ela ainda custa mais para as mulheres?

Absorvente descartável é dano ambiental; opção reusável pode ser política pública, diz CEO da Pantys
Absorvente descartável é dano ambiental; opção reusável pode ser política pública, diz CEO da Pantys · Imagem: Source: www.estadao.com.br

Nana Lima, cofundadora da Think Eva, e Flávia Meireles, analista de Research da Ágora, discutem os obstáculos que ainda afastam mulheres da autonomia financeira. Crédito: edição: Larissa Kinoshita

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Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Foto: Gabriel Enrique Vargas/Divulgação

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Entrevista comEmily EwellCEO da Pantys

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Com vida útil de cinco anos e alta capacidade de reúso, as calcinhas menstruais reutilizáveis podem ser muito eficazes para auxiliar políticas contra a pobreza menstrual e diminuir a geração de resíduos em aterros no Brasil. A perspectiva é defendida pela CEO da Pantys, Emily Ewell. A empresa dirigida por ela é especializada em calcinhas e coletores menstruais e gerencia um manifesto público pelo alcance da dignidade menstrual no País até 2030.

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Em entrevista ao Estadão, Ewell explica que, desde 2024, com base nesse argumento, faz advocacy (defesa) da distribuição das calcinhas menstruais pelo poder público, via projetos como o programa Dignidade Menstrual do governo federal. O projeto disponibiliza absorventes a mulheres em idade reprodutiva inscritas no CadÚnico, só que nas versões descartáveis.

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“Se pensarmos no custo de um absorvente, isso não inclui o custo ambiental de ele ficar em um terreno sanitário durante 500 anos. Quem está pagando por isso é o governo e, indiretamente, todos os consumidores do País”, avalia a gestora. “Um absorvente descartável tira uma menina da pobreza menstrual por oito horas. Já uma calcinha absorvente reutilizável pode tirá-la dessa situação por cinco anos. E isso pode ser uma coisa que muda totalmente o cenário de pobreza menstrual no Brasil.”

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Segundo dados internos da Pantys, com a venda dos seus produtos reutilizáveis no Brasil, a empresa calcula que já evitou o descarte de 2,3 bilhões de absorventes e já mitigou 48,9 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) em quase dez anos de existência. Mirando na adesão do público a esses itens, a companhia pretende lançar 200 novos produtos até o final deste ano, que deverão representar entre 20% e 25% de faturamento e gerar um crescimento à empresa de 18%.

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No Brasil, 15 bilhões de absorventes são descartados todo ano, segundo CEO da Pantys Foto: Divulgação/Unicef/BRZ/Elias Costa

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Leia os principais trechos da entrevista com a CEO da Pantys:

Pantys fala muito sobre conforto e sustentabilidade. Quando a empresa nasceu, há nove anos, que tipo de dor ela queria sanar?

Nós vimos duas dores grandes no mercado. Uma foi a do cliente. Fizemos uma pesquisa com quase 500 mulheres e entendemos que 96% delas falavam que não estavam 100% satisfeitas com os produtos menstruais, pois vazavam, geravam desconforto e irritavam a pele. Entendemos que havia pouca satisfação com esses produtos no mercado. Já do outro lado, vimos a dor do mercado na parte ambiental. Só no Brasil, 15 bilhões de absorventes são descartados todo ano. Atrás da China, é o maior mercado do mundo em uso de absorventes externos descartáveis. Então, vimos que, do lado do mercado, também tinha uma grande oportunidade de levar um impacto ambiental (positivo, já que) absorventes são feitos de plástico.

Dados publicados recentemente pela empresa apontam que o modelo de negócios da Pantys já evitou o descarte de 2,3 bilhões de absorventes. Esse destaque levanta o ponto de que o absorvente descartável é um problema ambiental?

Acredito que sim, porque é um lixo que demora mais de 500 anos para se decompor. Por exemplo, o primeiro absorvente que foi inventado ainda está na Terra. Com o crescimento da população global, é uma coisa que não é sustentável.

É um ponto que parece ser ainda pouco falado…

Sim, é pouco falado. Temos um site sobre pobreza menstrual — nós fazemos muita doação de produtos menstruais — e tentamos levar esse assunto para o setor público no Brasil. Se pensarmos no custo de um absorvente, isso não inclui o custo ambiental de ele ficar em um terreno sanitário durante 500 anos. Quem está pagando por isso é o governo e, indiretamente, todos os consumidores do País. Então, levamos isso como um assunto para o poder público, junto de um plano para acabar com a pobreza menstrual no Brasil, simulando proporções (de vida útil) de produtos descartáveis e produtos reutilizáveis. Um absorvente descartável tira uma menina da pobreza menstrual por oito horas. Já uma calcinha absorvente reutilizável pode tirá-la dessa situação por cinco anos. Nossa teoria de mudança foca em meninas de 13 até 18 anos que, em uma situação de pobreza menstrual, não conseguem ir à escola e não conseguem trabalhar. E isso pode ser uma coisa que muda totalmente o cenário de pobreza no Brasil.

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Como ficou a conversa?

Ainda assim, a conversa, infelizmente, como o setor público é de ir na opção mais barata, embora seja mais barata pensando em um prazo de um mês. Até o projeto de distribuição de absorventes nas farmácias populares dá três (pacotes de) absorventes a cada dois meses. Como realmente vai ajudar uma menina ou uma mulher em situação de pobreza menstrual? Se você faz a conta ao longo do ano, a Pantys fica mais barata e dura cinco anos. Mas eu vejo que há muito medo de, nesses processos de compra e distribuição no setor público, ir para uma opção que não seja a mais barata. Para mim, é um desafio. Estamos trabalhando para entender como mudar a mentalidade desses esforços, já que resolvem dois problemas: o da pobreza menstrual e o da geração de lixo.

Então, na sua visão, o absorvente reutilizável deveria ser política pública?

Deveria entrar nessa política pública, sim. E até deveria ser preferência, na minha visão, porque, se é mais barato ao longo do tempo e diminui o impacto ambiental, deveria ser considerado. Nós indicamos três calcinhas em um kit, que duraria por cinco anos. Quando fizemos o plano para acabar com a pobreza menstrual no Brasil, tínhamos um parceiro com foco em advocacy, e fizemos reuniões (em 2024) com equipes do Ministério das Mulheres, da Fazenda, da Saúde, do Meio Ambiente, pois isso toca em muitas áreas. Mas fizemos tudo sem esse olhar de marca. Mais como educação, para abrir caminhos para repensar.

Por quê?

Porque a maioria das pessoas nessas posições de decisão são homens, que nem menstruam, nem entende direito sobre as opções de produtos. Para eles, também é mais seguro ir no caminho padrão do mercado, que é o absorvente descartável, como a melhor opção. (O plano) foi bem recebido, mas a coordenação desses vários setores do poder público eu entendi que é muito desafiadora.

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A empresa chegou a fazer coalizão com outras marcas para fortalecer esse pedido?

Conversamos com parceiros que estão bem engajados nesses projetos de pobreza menstrual, mas vejo que para o setor privado não é prioridade fazer esse tipo de projeto. Talvez a expectativa para mudar alguma coisa seja muito baixa. Claro que gostamos de provocar o mercado, mas fica mais dentro do nosso mundo. Somos o maior do mercado no nosso segmento, então, para começar essas conversas, faz sentido que tenhamos esse papel. Mas eu teria muita abertura para ter (essa conversa) também com outras marcas.

A sra. falou sobre a questão dos custos. No caso de Pantys, como é trabalhado o acesso às calcinhas, em um contexto de público ainda muito sensível a preço?

Isso é muito importante. Sempre falamos que temos que democratizar nosso produto para escalar nosso impacto. Se eu tenho um produto que é premium, que é percebido como uma coisa de luxo, eu vou limitar meu impacto e meu potencial para crescimento no mercado. Até por isso, quando lançamos uma calcinha como a Sempre Livre, lançamos uma com 30% abaixo do nosso preço. Era uma linha de mais volume, então dá para negociar com nossos fornecedores e fazer preços melhores. Este ano, em parceria com a Natura, também foi lançada uma calcinha ainda mais barata. Toda vez que conseguimos aumentar a escala, temos a proposta de levar um produto o mais acessível possível com a mesma tecnologia. Não fazemos mudança na tecnologia do forro, da parte da saúde, que é muito importante e é uma prioridade para nós.

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Além da questão de evitar o descarte, há alguns outros atributos para tornar a calcinha mais sustentável, tanto na neutralização da pegada de carbono da fabricação das peças até fazer com que elas possam retornar como combustível para energia elétrica. Como isso acontece?

Temos um parceiro nas lojas físicas para que qualquer cliente possa levar de volta as peças antigas e receber um desconto na próxima compra. É um incentivo para ele fazer isso. Porque nosso produto é difícil de reciclar, não é 100% reciclável, nem 100% biodegradável. Então, esse foi o único caminho para fazer um descarte mais consciente. O parceiro faz um processo de queima que gera eletricidade.

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Há uma projeção de crescimento do negócio de 18% em 2026, com expansão de portfólio e atuação em saúde íntima. Quais os detalhes dessas frentes?

Nós não divulgamos muito sobre os lançamentos, mas estamos muito engajados com nossa comunidade na parte de inovação, e até chamamos isso de cocriação, porque a maioria dos lançamentos da Pantys veio das necessidades reais de pessoas reais, que são consumidores da marca. Então, nesse caso, também seriam desenvolvimentos e lançamentos muito ligados às tendências do mercado, naquilo que os consumidores estão precisando, e também em alguns white spaces, aqueles espaços em que não há nenhuma marca hoje em dia atuando. Aí, nós conseguimos levar bastante valor não só no lado da saúde, mas também no lado de impacto ambiental.

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