Pesquisa da CNN Brasil revela que brasileiros recorrem a chatbots para buscar acolhimento, enquanto especialistas alertam para possíveis efeitos nos vínculos humanos

A pesquisa da CNN Brasil em parceria com o Instituto Locomotiva revela uma mudança na forma como parte dos brasileiros busca escuta e acolhimento. O levantamento ouviu mais de 2 mil pessoas e mostrou que 58% já se sentiram mais compreendidas pela inteligência artificial do que por outras pessoas, enquanto 40% afirmam preferir conversar com uma IA a falar com alguém. O comportamento levanta dúvidas sobre os efeitos de transformar chatbots em confidentes e fontes de apoio emocional, sobretudo quando essas interações passam a ocupar espaço nas relações pessoais. A psicoterapeuta Renata Roma explica como esse comportamento pode afetar a forma de lidar com emoções e relações. Veja o que explica essa aproximação e quais sinais merecem atenção.

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Para 60% dos brasileiros que já choraram ao conversar com uma IA, essas interações ajudam a reduzir a sensação de solidão, segundo a pesquisa — Foto: Gerada pela IA GPT 5.5

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Índice

- Por que a IA pode parecer mais acolhedora?

- Quais são os riscos de usar IA como confidente?

- Conversar com IA pode causar dependência emocional?

- IA pode substituir relações humanas?

- IA, amigo ou psicólogo: qual é a diferença?

- Como usar a IA sem criar dependência?

1. Por que a IA pode parecer mais acolhedora?

A IA pode parecer mais acolhedora porque costuma concordar com o usuário e reforçar suas opiniões, sem apresentar o mesmo nível de discordância comum nas relações humanas. Para algumas pessoas, essa postura cria uma sensação de aceitação que nem sempre aparece em conversas presenciais.

Segundo a psicoterapeuta, doutora em Child and Youth Studies pela Brock University e pós-doutora em estudos sobre a interação entre pessoas e animais, Renata Roma, as ferramentas são treinadas para oferecer respostas positivas. Por isso, a interação pode transmitir uma sensação de conforto emocional diferente daquela encontrada em relações com outras pessoas.
Outro fator é a disponibilidade constante. A IA não possui rotina e horários de indisponibilidade. Como explica a psicoterapeuta, não é preciso esperar que alguém esteja livre para iniciar uma conversa. Assim, a combinação entre respostas positivas e acesso imediato pode tornar a interação mais confortável para algumas pessoas.
2. Quais são os riscos de usar IA como confidente?
O uso da IA como confidente pode trazer riscos quando a pessoa passa a tratar a interação com a ferramenta como equivalente a uma relação humana. Segundo a psicoterapeuta Renata Roma, isso pode gerar expectativas irreais sobre outros relacionamentos e alterar a forma como o usuário avalia os próprios pensamentos.
A especialista também alerta para o risco de substituir a reflexão pessoal pelas respostas da ferramenta. “Em vez de refletir e tentar encontrar suas próprias respostas, a pessoa passa a comparar sua forma de pensar com as respostas dadas pela IA. Isso pode ser prejudicial à autoestima e à capacidade de reflexão — de chegar às próprias conclusões utilizando seus próprios recursos emocionais.”
Companheiros digitais podem oferecer conforto emocional em momentos de solidão. O risco aparece quando a tecnologia passa a substituir relações humanas reais — Foto: Reprodução/Freepik
Esse comportamento pode se tornar ainda mais problemático quando a confiança na tecnologia aumenta. Renata destaca que a pessoa pode deixar de buscar a ajuda adequada quando necessário e confiar cegamente na máquina. Nesse caso, a IA deixa de ser apenas um recurso de conversa e passa a influenciar decisões que exigem outros tipos de apoio.
3. Conversar com IA pode causar dependência emocional?
O uso frequente e excessivo da inteligência artificial pode levar à dependência emocional, segundo Renata Roma. “Tudo aquilo que é levado ao excesso pode gerar essa sensação de dependência emocional”, afirma. O alerta aparece quando a ferramenta deixa de ser apenas um recurso de conversa e passa a ocupar um papel necessário na rotina.
Um dos sinais, segundo a psicoterapeuta, é não conseguir tomar decisões ou responder a determinadas situações sem consultar primeiro a IA. A pessoa também pode começar a buscar na ferramenta uma resposta considerada melhor para praticamente tudo o que pensa. Outro ponto de atenção surge quando as próprias respostas deixam de parecer suficientes. Renata explica que isso pode acontecer quando o usuário sente que sua busca interior já não consegue oferecer respostas sem a validação da tecnologia.
Segundo profissionais de saúde mental, o uso frequente da IA pode causar dependência — Foto: Reprodução / Pixabay
A dependência também pode aparecer na ausência da ferramenta. “Quando sente ansiedade, nervosismo ou reações emocionais intensas quando não consegue acessar a IA. Isso indica um sinal de alerta”, afirma a especialista.
4. IA pode substituir relações humanas?
A inteligência artificial pode ocupar parte do espaço das relações humanas, mas não consegue substituí-las por completo porque as pessoas fazem parte de relações sociais. Segundo Renata Roma, algumas pessoas podem tentar trocar vínculos reais pela interação com a tecnologia e se fechar progressivamente.
Esse afastamento, de acordo com a profissional, pode reduzir as oportunidades de desenvolver habilidades sociais e emocionais. Com menos contato com outras pessoas, também existe o risco de deixar de construir um círculo de amizades e relações sociais que ajudem a reduzir a solidão e a sensação de desamparo.
A preocupação surge quando a ferramenta passa a ocupar o lugar de vínculos que ajudam a pessoa a desenvolver habilidades e lidar com diferentes situações sociais. Segundo a especialista, esse isolamento pode aumentar a vulnerabilidade. “No fim, a pessoa fica mais vulnerável ao desenvolvimento de problemas de saúde mental.”
5. IA, amigo ou psicólogo: qual é a diferença?
A IA não oferece o mesmo tipo de apoio que amigos, familiares ou psicólogos. As ferramentas trabalham com respostas padronizadas e generalizadas, enquanto as relações humanas envolvem experiências e diferentes perspectivas.
Embora sistemas digitais possam oferecer companhia, psicólogos afirmam que relações humanas continuam sendo fundamentais para o desenvolvimento emocional — Foto: Reprodução/Freepik
De acordo com Renata Roma, amigos, familiares e psicólogos podem questionar o que a pessoa diz, discordar e apresentar outros pontos de vista. Esse processo ajuda na reflexão e na construção das próprias respostas. A especialista explica, porém, que nem sempre é confortável: “Isso pode ser desconfortável, porque muitas vezes as respostas não estão prontas e não são simples.”
Renata também destaca que amigos e familiares trazem experiências próprias e “um nível de complexidade que reflete de maneira mais precisa como a realidade funciona”. Nas conversas com IA, por outro lado, a facilidade das respostas pode criar a impressão de que problemas complexos têm soluções mais simples do que realmente têm.
6. Como usar a IA sem criar dependência?
Para evitar dependência, a IA deve ser usada com cautela e principalmente para questões práticas e objetivas, como buscar informações, organizar ideias ou auxiliar em tarefas. A recomendação é não transformar a ferramenta em fonte de respostas rápidas para questões emocionais, nem permitir que ela substitua a reflexão própria e os vínculos humanos.
Renata Roma recomenda não confiar cegamente nas opiniões da tecnologia. Também é importante observar a frequência de uso e perceber se a IA começa a ocupar um espaço cada vez maior na rotina. “É importante estar atento aos sinais de dependência — perceber se o uso está se tornando diário ou frequente e observar em quais momentos o nível de conforto é maior com a IA do que sem ela.”
Com informações de CNN Brasil.
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